Ao encontro dos cristãos do Oriente

TRADUZIDO POR MARIA GABRIELA CÓ E JÉSSICA RIBEIRO DA SILVA

“Falar da crueldade e da bondade do Oriente”, tal é o desafio de Pascal Maguesyan. Jornalista de longa data e amante da fotografia, Pascal percorre as terras do Próximo e Médio Oriente há mais de dez anos e pega na caneta para testemunhar. Em Chrétiens d’Orient, ombres et lumières (Cristãos do Oriente, sombras e luzes), publicado em 2013, Maguesyan conta as suas viagens e os seus encontros. O Jornal Internacional encontrou-se com ele.

“Todas as pessoas que encontrei nestes países fizeram-me querer dá-las a conhecer […] e inscrevê-las na História”. Há anos que Pascal Maguesyan vai ao encontro do Oriente e das suas populações. Os campos minados da Palestina e de Israel, a Revolução Egípcia, a aflição na Síria, o trabalho memorável na Arménia e na Turquia, a sobrevivência no Iraque, a abertura do Líbano, a diversidade do Irão… Maguesyan levanta o véu sobre a situação da segurança precária das comunidades étnicas e religiosas.

As suas viagens são curtas e regulares, “intensas e úteis”. Primeiro, é necessário fazer contatos, ter onde dormir. O objetivo é estar em segurança, dando a si mesmo “o prazer da descoberta, o prazer do inesperado”. Mas para Maguesyan, “uma vez que se está lá, está-se lá. O medo deixa de fazer parte da equação”.

“No Oriente tudo é uma questão de religião.”

(audio em francês)

Neste oceano de escuridão, Pascal Maguesyan aborda as “ilhotas de vida” dirigidas por atores da paz. Na maternidade de Belém, na Palestina, instala-se um grupo de médicos maioritariamente cristãos para uma maioria de pacientes muçulmanos. Em Anafora, na estrada de Alexandria, no Egito, “Anba Thomas, um bispo ortodoxo copta, tenta promover a educação aos cidadãos […] partilhada entre coptas e muçulmanos”. Quanto ao mosteiro de Mar Musa, este situa-se no deserto sírio. Foi restaurado por Paolo Dall’Oglio, um homem dedicado ao “diálogo inter-religioso, islamo-cristão”. Dall’Oglio define-se como “crente em Jesus, apaixonado pelo Islão”.

Contudo, os que pregam a paz e o diálogo no Oriente estão constantemente sob ameaça. “Estas pessoas querem falar ao mundo, inscrever-se num processo aberto, pluralista, fraternal”. “É necessário dar-lhes cada vez mais a possibilidade de se exprimirem […], de respirarem”. As redes sociais foram um meio de comunicação essencial, particularmente aquando das agitações primaveris árabes. Agora, é necessário, “passar do virtual ao real”.

Ora viajemos um pouco…

Israel-Palestina: “uma prisão a céu aberto”

Ao pisar a Terra Santa, Pascal Maguesyan constata a sobrevivência das populações presentes, amantes de um conflito milenar. Maguesyan acusa o Estado israelita de ser o líder de um “sistema colonial” tóxico para os Palestinianos, no qual a confinamento territorial os impede de se abrirem ao estrangeiro num contexto globalizado.

(audio em francês)

É a história de um conflito sem fim, da qual a comunidade internacional se afasta. “Podem recorrer a mediadores – Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido – […], mas se não houver confiança entre os atores do conflito nada é possível […]. Quando se tem atores como esses, que se dedicam somente ao ódio e apelam à morte de uns e de outros, não se pode construir um clima de diálogo”.

Escalas turcas e arménias

Paul Maguesyan é de origem arménia. Os seus avós sobreviveram ao genocídio do início do século XX. Maguesyan pisa estas terras com “uma carga, por sua vez, pessoal e ligada à dimensão dos fenómenos destrutivos”. O mesmo percorre caminhos onde a população local conheceu a deportação, a fome e os massacres organizados pela administração Jovens-Turcos, de 1915 a 1917. Uma “solução final” ao gosto do Oriente.

“Ayse Gunaysu é uma mulher turca muito empenhada no combate pelos direitos cívicos na Turquia. Na primeira vez que fui à Turquia, encontrei essa mulher em Istambul. Ela pegou-me as mãos e pediu-me perdão […] pelo que os Turcos haviam feito aos Arménios. Senti-me um pouco liberto.” (Pascal Maguesyan)

Os “ossários de pedra”

A negação do genocídio arménio permanece uma política de Estado na Turquia. O ódio contra os arménios está ainda bastante presente em certos meios. À mesma, contrapõe-se uma vontade de sair da amnésia coletiva. Turcos, Curdos ou, ainda, Arménios juntam-se para estabelecer a verdade histórica. “O reconhecimento do genocídio arménio é um pequeno aspeto na problemática global. O reconhecimento deste ponto permitiria desbloquear os outros aspetos”. O filósofo e jornalista arménio Grant Dink, morto em Istambul, é um exemplo destes atores que desejam quebrar um tabu entre dois povos.

Pascal Maguesyan em frente da Igreja Santa Cruz de Akhtamar (Arménia Ocidental, Turquia) em Setembro de 2010. Créditos: Pascal Maguesyan.

“A Turquia é um universo de paradoxos. Tanto podemos falar do genocídio como, ao mesmo tempo, não podemos falar dele. É, assim, necessário delinear esse vinco e muita gente tenta fazê-lo, mesmo que o negacionismo seja sempre muito violento e mesmo que a Turquia continue a destruir o património cultural arménio.” Cerca de 2500 igrejas e 500 mosteiros da Arménia ocidental foram transformados em “ossários de pedra”. Apenas a Igreja de Santa Cruz de Akhtamar e a Catedral Sourp Guirados foram recolocadas em pé. O Estado turco contribuiria para o processo de destruição autorizando as pilhagens das ruínas e a profanação de cemitérios.

(audio em francês)

Em Julho de 2015, Pascal Maguesyan lança-se num desafio: partir de Ani até Diyarbakir. Ele segue, assim, o caminho onde foram conduzidos à morte arménios, sírios e caldeus, em pleno deserto mesopotâmico. O seu objetivo é recordar esta tragédia, “criar um caminho”. O jornalista lança-se num percurso de 900 quilómetros, em 30 dias. Ele conta as peripécias na sua última obra “Sur les chemins de Guirados” (pelos caminhos de Guirados), publicado em 2017.

(audio em francês)

Egito: o acordar da sociedade civil

Julho de 2011. Pascal Maguesyan faz-nos viver a revolução egípcia do interior.

 

(audio em francês)

A sociedade civil, “principal ator da revolução”, foi rapidamente ocupada pela organização islâmica dos Irmãos muçulmanos. Estes “comportaram-se como atores cívicos ao participar nas reuniões em massa” e serviram de benfeitores sociais face à falha estatal. A sociedade “não se reconhece” nesta nova governação de ideologia islamista e impõe-se de novo. Hoje, o Egito vive em agonia, sem perspetiva de desenvolvimento individual e coletivo. “A possibilidade de violência no Egito é muito importante, principalmente através do islamismo político, ou até mesmo do islamismo radical”, mesmo se a presença do Daesh aí permaneça insignificante.

Ao meu amado Oriente

“Podemos abrirmo-nos ao Oriente através da produção intelectual […]. Todas as possibilidades estão em aberto”. A respeito de uma atualidade sinistra para a população da Síria que Pascal Maguesyan evoca frequentemente, este apela à benevolência. “Somos um pouco como as formigas. Vivemos em sociedade, […] por vezes isto traz-nos infelicidade porque não nos entendemos e travamos guerras; por vezes viver em sociedade traz-nos felicidade. É preciso encontrar um ponto intermédio”.

A mensagem final? “O Oriente é múltiplo, é indefinível”. Continuar a caminhar, a escrever e a testemunhar, tal é a vontade de Pascal Maguesyan. “Espero que estas sociedades cheguem a encontrar um lugar de concórdia civil e que o islamismo e fundamentalismo de todas a partes tenham fim”, conclui ele.

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