Drapeau du Royaume-Uni. Crédit Rob Micthell.

Brexit: a Irlanda do Norte em pedaços

TRADUZIDO POR MARIA GABRIELA CÓ E PATRÍCIA FERREIRA

Desde Março que o Brexit leva as diferentes regiões britânicas a repensar as suas relações com a Inglaterra e com a Europa. Uma imersão na fronteira da Irlanda do Norte, da qual o reforço abre um debate sobre uma eventual reunificação da Irlanda.

A Irlanda do Norte sempre foi uma província instável e separada do Reino Unido. Desde a sua própria decisão de não se juntar à Irlanda independente, em 1922, até aos acontecimentos violentos de 1960 a 1990, o país confrontou-se com vários problemas sociais. O acordo de 1998 assegurou globalmente a paz. Desde então, o descontentamento republicano persiste, à imagem do partido Sinn Fein. Tudo poderia mudar após o Brexit. Como na Escócia, a maioria do eleitorado norte-irlandês – 55,8% – havia recusado a saída da União Europeia.

Restabelecer o controlo na fronteira irlandesa

O governo central de Westminster e o parlamento descentralizado de Stormont, em Belfast, discutem o futuro de uma Irlanda do Norte fora da União Europeia. O reforço na fronteira entre as duas Irlandas poderia resultar num sistema de leitura automática de matrículas nos pontos de controlo. Este sistema poderia permitir uma quase troca livre entre a Irlanda do Norte e o mercado único. David Davies, o ministro responsável pelas negociações do Brexit, declarou ter intenções de adoptar esta solução. Os custos e a viabilidade tecnológica, por sua vez, ainda não foram estimados ao detalhe.

Cathryn McGarry, diplomada em ciência política da Universidade Ulster, deu ao Journal International o seu ponto de vista sobre a complexidade da fronteira irlandesa. “O resto do Reino Unido tem tendência a banalizar os problemas na Irlanda do Norte. A respeito do conflito unionista-republicano, o governo escreveu vários acordos para fortalecer a paz. Por exemplo, o Acordo de Saint-Andrew foi assinado em 2006 após anos de um parlamento instável. A situação efectivamente melhorou desde a nossa infância até ao início do século XXI….mas permanece ainda um assunto sensível!

Em direcção a uma reunificação?

As reações dos cidadãos são mistas. Doyle Braden, originário do Condado de Tyrone revela-se irritado com esta decisão do eleitorado britânico. “Sentia-me um pouco aldrabado”,  confiou-nos ele. “As pessoas idosas comprometeram o meu futuro. Enfim, é a democracia, e é assim”. Do outro lado da fronteira, Aidan Kavanaugh, estudante irlandês em França, reconhece que o seu país será influenciado pelo isolamento do seu vizinho. No entanto, Aidan expressa uma posição mais neutra. “Existem benefícios e inconvenientes com a saída da Irlanda do Norte. De qualquer maneira, são os políticos que decidirão, e não os cidadãos. Estes só queriam que as suas vozes fossem ouvidas”. Os jovens irlandeses estão habituados a um panorama político e económico estável. Este encontra-se completamente comprometido com o Brexit.

A confiança em Stormont parece irrisória. Fragilizada pela demissão, em Janeiro, de Martin McGuiness [falecido há duas semanas, nr], a divisão enfrentou uma eleição, no 2 de Março último. O Partido Unionista Democrático (DUP) tomou a liderança, seguido de Sinn Féin, em segundo com uma cadeira a menos. Unionistas e republicanos colaboraram durante duas décadas. No entanto, esta colaboração afunda-se e ainda não conseguiram formar um governo de coligação. O principal obstáculo: a reunificação do país exigida por Sinn Féin. Sobre este aspeto, Cathryn está céptica. “É mais viável hoje que na época de 1990. Mas isto levaria vinte anos, no mínimo. Mais vale assegurar-se que a nova fronteira com a União Europeia, que vai existir, seja tão aberta quanto possível”.

A instabilidade continua

Esta instabilidade política põe em questão a capacidade de Belfast gerir sozinha o seu futuro árduo. A morte de McGuiness veicula, por sua vez, um símbolo forte. No centro dos acordos de 1998, McGuiness lembra a ambição de paz para o país. Um problema ao qual é doravante necessário juntar o problema do Brexit.  A província está assim presa pelas barreiras, por um lado geográficas, mas também históricas. 

Foto de capa: bandeira do Reino Unido. Crédito Rob Mitchell

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