Manifestation anglophone. Crédit cameroon-info.net.

Camarões: o descontentamento da comunidade anglófona

TRADUZIDO POR PATRÍCIA FERREIRA E JÉSSICA RIBEIRO DA SILVA

As zonas anglófonas dos Camarões vivem ao ritmo das manifestações e dos dias de “cidade fantasma” há mais de três meses. Estas populações acusam o poder de as marginalizar. A firmeza do governo não basta para reestabelecer a ordem. O problema persiste.

Nas ruas de Yaoundé, a expressão “we are maginalised” (“nós somos marginalizados”) é banalíssima. Esta é utilizada pelos anglófonos para expressar um sentimento de frustração. Ela é tão ouvida que certos estudantes a escarnecem nas suas discussões. Para lá do humor, é um verdadeiro sentimento de mal estar que prevalece na parte anglófona dos Camarões. A sua população anglófona, que constitui 20% dos 22 milhões de camaroneses, acusa o poder de marginalização.

Tensões crescentes

A tensão aumentou em novembro passado. Uma manifestação em Bamenda, no noroeste da região anglófona, tornou-se num confronto entre as forças de ordem e a população. Na origem destes eventos, uma greve dos professores anglófonos contra o recrutamento de francófonos. Os conflitos provocaram três mortos, de acordo com o principal partido da oposição, o Social Democratic Front (SDF). As autoridades desmentiram estas acusações, dando conta de apenas uma morte. O poder e os manifestantes rejeitaram mutuamente a responsabilidade da ou das mortes.

Alguns dias antes desta greve, foram os advogados que reclamaram a aplicação da Common Law nas zonas anglófonas. Professores e advogados acusam o governo de querer “francofonizar” estas regiões. Os advogados acreditam que os documentos oficiais não estão traduzidos em inglês nas suas publicações. Acusam ainda o governo de nomear juízes francófonos em regiões anglófonas e acusam estes últimos de não dominar o sistema jurídico anglófono.

A contestação trouxe outra reviravolta no início do ano. Os dias de “cidade fantasma” tiveram forte adesão nas regiões do noroeste e do sudoeste após o apelo de advogados, professores e de membros da sociedade civil anglófona. Esta prática consiste em não sair de casa em sinal de protesto, tornando por vezes as ruas desertas.

Discurso de afirmação do governo

O governo consentiu negociar com os professores e advogados, mas sem resultado, o que demonstra uma recuperação política do movimento. Uma parte dos protestantes reclama o retorno do federalismo, um sistema que existia antes da reunificação de 1972. Impensável para as autoridades, para quem os Camarões se devem manter indivisíveis. O ministro camaronês da Comunicação, Issa Tchiroma Bakary,  tinha declarado que “não há nem haverá nenhum problema anglófono nos Camarões. O inglês e o francês são as línguas coloniais subsequentes. São duas línguas oficiais com a mesma importância. Se houver reivindicações de ordem administrativa ou política, a Constituição já as previu”.

Os serviços de Internet foram cortados há algumas semanas por ordem das autoridades. Três líderes da contestação foram presos e o seu  movimento interdito. O seu processo, aberto no dia 13 de fevereiro, foi imediatamente adiado para o próximo mês de março. Para Hans de Marie Heungroup, investigador na International Crisis Group “o ponto de vista do governo tem elementos verdadeiros”. Mas acrescenta que “o governo subestima os rancores sociais, o sentimento de marginalização está fortemente ancorado nas sociedades do noroeste e do sudoeste camaronense”.

Problemática pós-colonial

Inicialmente, Kamerun eram uma colónia alemã. Após a derrota germânica em 1918, voltaram à jurisdição francesa e inglesa. Depois da sua independência na década de 1960, um referendo sob a égide das Nações Unidas dividiu a zona sob administração inglesa em duas. Uma parte escolheu unir-se à Nigéria, a outra escolheu permanecer camaronesa. Um sistema federal foi instaurado até 1972. Anglófonos e francófonos foram assim reunificados com duas línguas oficiais, o francês e o inglês.

Foto de capa : manifestação anglófona. Crédito cameroon-info.net.

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