Crédit cigkoftem.com.

Çiğköftem, fast food responsável…sem querer

TRADUZIDO POR CATARINA DE VASCONCELOS CABRAL MACEDO E MARIA GABRIELA CÓ

E se a redução do consumo de carne viesse da fast food? É o que aparenta a Çiğköftem, uma cadeia vegan turca criada em 1993. Atualmente, esta impõe-se como uma das mais importantes na Turquia e, pouco a pouco, no resto da Europa. Reportagem.

Nas ruas de Istambul, os restaurantes Çiğköftem são tão numerosos como os da McDonald’s ou de outras fast food. A lista inclui variados menus à base de cig köfte – almôndegas de bulgur (grãos de trigo partidos) – e saladas ou pratos frios. O cig köfte é um prato tradicional turco. Originalmente, junta-se carne crua ao bulgur. Mas, aqui, foi afixada na vitrina a marca “vegan”. Sem nunca parar de preparar um dürüm – espécie de bolacha – o chef explica-nos: “em casa, faço-os sempre com carne. Mas como se trata de carne crua, não temos direito a servi-la no setor da restauração rápida”. Medida de higiene.

Os çiğ köfte servidos com as saladas e os dürüm. Crédito cigkoftem.com.

“Vegano sem cair no cliché de só comer verduras”

Hippolyte é vegetariano e almoça regularmente no Çiğköftem. “O que adoro no Çiğköftem é a ideia de poder comer pratos vegans sem cair no cliché de só comer verduras. Lá, comemos melhor e mais barato do que nos outros restaurantes de fast food”. Para ele, a prioridade máxima é a redução da alimentação animal. Sem uma mudança radical, “não poderemos alimentar os 9 milhares de seres humanos que são esperados até 2050”.

É certo que as estatísticas sobre a pecuária são assustadoras. Segundo a ConsoGlobe, um quilo de carne de bovino precisa de entre 30 000 e 60 000 litros de água. A FAO salienta que a pecuária emite mais gases com efeito de estufa do que o setor dos transportes. Se, por um lado, devemos relativizar este número, pois o transporte do gado e da carne é considerado nestas emissões, outros estudos consideram-no, pelo contrário, subestimado. Também a Greenpeace procura dar o alerta: de acordo com a ONG, a pecuária por si só será responsável por 80% da desflorestação da Amazónia.

A Çiğköftem está, contudo, bem longe do “combate” ecológico e ético. A marca parece gostar de exagerar na teatralidade com que usa a sua imagem vegan. Com exceção das embalagens biodegradáveis, a cozinha proposta não é biológica nem local. Está longe do ideal seguido por alguns veganos, que optaram por este modo de vida para reduzirem o seu impacto ambiental. Também não apresenta a marca “comércio justo”.

“Democratizar a alimentação rica em vegetais”

Hippolyte tem consciência dos limites do green-washing levado a cabo pela marca. “O veganismo não é tudo. Ser vegano consiste em não consumir produtos de origem animal. No sentido mais restrito do termo, um legume pode estar encharcado em pesticidas, mas não deixa de ser vegan. Um outro exemplo: o óleo de palma, razão pela qual se está a destruir a floresta primitiva na Indonésia e na Malásia. É um óleo vegetal, pelo que tecnicamente é vegan. O veganismo não deve substituir uma alimentação de comércio de proximidade, mas antes completá-la. Para mim, comer no Çiğköftem não é um consumo “ético”.

Apesar de acreditar que “ainda é muito complicado levar uma alimentação amiga dos vegetais fora de casa”, considera-se otimista. “Abrir ainda mais restaurantes Çiğköftem seria uma oportunidade de democratizar a alimentação rica em vegetais e, portanto, de mudar o comportamento dos consumidores. O impacto ecológico de uma refeição no Çiğköftem não deixa de ser claramente inferior ao de uma refeição no Burger King, por exemplo”. Mesmo que esta cadeia nada tenha de revolucionário, cria o estado de espírito para uma transição progressiva do sistema, desde o seu interior. Poderia contribuir para fazer passar à ação os menos “radicais” que, ainda que totalmente conscientes do impacto do seu consumo de carne, não se sentem preparados para mudar o estilo de vida de modo a reduzi-lo.

Portas abertas para um padrão de consumo

Seguindo esta lógica de abertura, Hippolyte tinha até pensado em tornar-se acionista da empresa. “O ponto de vista que defendo é o de um mundo onde junto de cada McDonald’s haja um Çiğköftem”. Depara-se apenas com um problema: a Çiğköftem não está na Bolsa. Se aponta o dedo à McDonald’s, é porque esta marca bem-sucedida é o símbolo do consumo excessivo de carne. Diariamente, serve 69 000 000 de clientes, o que equivale a perto de 1% da população mundial a um ritmo quotidiano. “O que claramente não é sustentável”, alerta-nos o jovem. “Não podemos impedir que as pessoas frequentem as fast food, daí a importância de lhes propormos algumas menos nocivas para o planeta”. Desde 1993 que a marca se tem fixado em diversos países europeus. Abriu, até, uma segunda sede na Alemanha, para além da de Istambul. O veganismo torna-se um negócio como qualquer outro. Os restaurantes Çiğköftem abrem garantidamente as portas a este padrão de consumo, mesmo que sigam uma lógica financeira.

Fotografia de capa: um restaurante Çiğköftem. Créditos cigkoftem.com.

Rédacteur en chef du Lyon Bondy Blog, ex-rédacteur en chef du Journal International. Réalisateur du webdoc « Humanité Clandestine ». Aime le journalisme de terrain, d’analyse et d’investigation.

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