Os contos gaboneses, uma tradição ancestral

TRADUZIDO POR PATRÍCIA FERREIRA E CORRIGIDO POR CATARINA ARANTES

Com as suas numerosas etnias, o Gabão é um país rico em diversidade. De uma tribo a outra, um elemento mantém-se constante, apesar das diferentes línguas. Histórias contadas à volta da fogueira nas aldeias, na biblioteca de Libreville, os contos gaboneses refletem os valores do país e forjam a identidade da sua nação.

Animais personificados ou, às vezes, espíritos da floresta; alguns humanos de vez em quando. Os protagonistas dos contos gaboneses tomam diferentes formas, mas transmitem sempre valores morais.

Este conceito de “contos gaboneses” existe há apenas 50 anos, quando o padre André Raponda-Walker decidiu percorrer o país para transcrever estas histórias. Antigamente, a sua transmissão era feita de modo quase exclusivamente oral. Graças ao seu conhecimento de várias línguas locais, Raponda-Walker conseguiu reunir dezenas de histórias na sua coleção “Contos Gaboneses.” O seu comprimento e o seu estilo variam, mas, no final, encontramos em cada uma delas certos aspectos morais e valores.

Evoluir a prática para a conservar

Fruto de uma mescla étnica, Yannick viveu uma grande parte da sua infância em Libreville. Hoje, ele ambiciona lançar-se numa carreira de desenhador. O seu projecto: adaptar estes contos antigos em forma de banda desenhada. Um desejo de modernização para permitir que a tradição evolua. “A capital está a mudar, a uniformizar-se com o resto mundo. As aldeias ainda não foram muito afetadas, mas as práticas já se começaram a alterar”, analisa. Antigamente, os anciãos contavam estas histórias aos mais novos em vigílias em redor das fogueiras das aldeias. Hoje em dia, este costume limita-se cada vez mais a grandes celebrações. “É importante conservar este património. Os contos desempenham um papel essencial na educação dos jovens gaboneses. O mundo muda e é necessário adaptar-se para que eles não desapareçam com a mudança”, afirma o desenhador.

Yannick lisant Contes gabonais, d'André Raponda-Walker. Crédit Alexis Demoment.

Yannick a ler “Contos Gaboneses” de André Raponda-Walker. Crédito de Alexis Demoment.

Nas histórias, as personagens têm traços de figuras exageradas. Frequentemente, a conclusão da história consagra o triunfo do fraco sobre o forte, graças à astúcia e à solidariedade. “A ideia é mostrar às crianças que a relação força-fraqueza não é fixa. Pode inverter-se dependendo das situações”, explica Yannick. Quando questionado sobre o seu conto preferido, responde, após alguma hesitação, “A Pantera e o Camaleão”. O cenário é muito simples: com a ajuda da sua família e da sua astuciosa camuflagem, o camaleão consegue vencer uma corrida contra a pantera, um dos animais mais rápidos da floresta. A simbologia é forte, já que o emblema do Gabão é a pantera negra. ”

O bar ou a igreja

Histórias similares estão disponíveis no livro com outros leques de personagens. André Raponda-Walker conservou as especificidades das diversas etnias. “Ele limitou-se a transcrever. Ele deixa as pessoas encontrar ou não as parecenças entre as histórias de cada tribo”, cumprimenta Yannick. “Guardou as onomatopeias. Ao lê-las, um estrangeiro não as iria compreender. Mas para um gabonês vem realmente da nossa tradição oral, reflete as nossas conversas quotidianas”. A obra implicou um trabalho de terreno colossal, levado a cabo alguns anos após a independência, e teve um papel importante na aproximação dos povos do país que, apesar da proximidade cultural e geográfica, estão bastante isolados uns dos outros.  A aposta do conto é dupla: valorizar cada uma das múltiplas culturas gabonesas e, ao mesmo tempo, desenvolver uma identidade para a população.

Os contos têm habitualmente um elemento cómico, mas a sua função vai muito para além do puro entretenimento. Através do humor, transmitiam um sentimento de pertença à tribo e os seus valores. A maioria das crianças são atualmente escolarizadas, o que fez evoluir o lugar do conto na sociedade. Se ele já lá não está, de facto, no centro, questionamo-nos sobre a sua revalorização no seio da educação.  “No Gabão, a maioria dos jovens fazem apenas duas coisas: ir à igreja ou ir ao bar”, ao afirmar isto, Yannick não procura deitar todas as culpas nos jovens, mas recusa-se também a pôr a totalidade da responsabilidade no contexto da instabilidade. Para ele, cada um deve esforçar-se, tanto autoridades políticas como sociedade civil.

Uma única biblioteca em Libreville

“A cultura existe, mas é pouco acessível. Há uma única biblioteca em Libreville”, lamenta-se Yannick. Com a sua associação, a AGLE, Yannick tem como objetivo desenvolver o acesso aos livros na capital. No plano pessoal, espera que as tensões que duram desde o verão passado declinem para poder regressar ao Gabão. Tendo vivido na cidade, gostaria de “ter a oportunidade de viajar pelas aldeias”, para se submergir ainda mais nesta cultura. Quanto ao futuro do seu país, mantém-se optimista. “É uma nação jovem. Algumas conheceram séculos de instabilidade. Não acho que o mesmo se vá passar com o Gabão.” Para Yanick, a educação e identidade fazem parte dos maiores desafios nacionais. Contar tornou-se um combate pela paz.

Foto de capa : crédito de Alexis Demoment.

 

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