Crédit ONU (Flickr).

Costa do Marfim: a cólera dos soldados

TRADUZIDO POR JÉSSICA RIBEIRO DA SILVA E MARIA GABRIELA CÓ

No início do ano, ocorreram três motins com pouco espaço de intervalo na Costa do Marfim. A calma regressou e as autoridades esforçam-se para apaziguar a cólera dos soldados. O desafio: evitar que o país volte à escuridão.

Os costa-marfinenses acreditaram estar a reviver os anos de pesadelo e violência que haviam mergulhado o país numa crise sem precedentes. Tiros de armas automáticas tinham agitado as cidades de Bouaké, Korhogo e Daloa. Estas localidades eram os feudos dos antigos rebeldes na origem das divisões de 2002. Doravante, estes rebeldes integraram o exército. São precisamente eles que disparavam para o ar, espalhando o pânico.

Motins sucessivos de diferentes corpos de segurança

Os motins tinham como reivindicação o pagamento dos seus subsídios. Em Abidjan, a capital, o governo não tardou a reagir. O ministro da Defesa, Alain Richard Donwhai, foi enviado para Bouaké, que aparentava ser o epicentro. Uma vez lá, as negociações com os motineiros duraram várias horas. Antes de serem desmentidas, algumas informações avançaram que o ministro e a sua delegação teriam sido feitos reféns. A presidência costa-marfinense anunciou finalmente a conclusão do acordo com os soldados para colocar um ponto final ao movimento. As principais reivindicações serão satisfeitas. Os 8 500 soldados receberão um total de 12 000 000 de francos CFA; ou seja, cerca de 18 000€.

O Estado costa-marfinense pensava ter então virado essa página “motineira”. Contudo, o acordo não agradou toda a gente, particularmente os restantes corpos de segurança. Estes últimos, membros não importantes da rebelião, não estavam abrangidos pelo acordo. Sentiram-se vigarizados pelas autoridades. Essa frustração manifestou-se através de outro motim. Polícias, soldados, guardas-prisionais e fiscais aduaneiros fizeram soar os alarmes nas principais cidades costa-marfinenses, incluindo Abidjan e Yamoussoukro. Reivindicavam um aumento dos vencimentos.

Essa contestação provocou uma vítima entre os soldados motineiros. O governo lançou um apelo ao apaziguamento. Após alguns dias de tranquilidade, o ciclo de mudanças de humor dos homens de armas voltou ao ataque. No início de fevereiro, foram as forças especiais, uma unidade de elite, que exprimiram o seu descontentamento, igualmente através de motins.

A população farta até à ponta dos cabelos

A exasperação dos costa-marfinenses face a estes motins é crescente. Os motineiros tentaram apaziguar a cólera da população pedindo desculpa. Há quem acuse as autoridades de terem cedido demasiado depressa às reivindicações dos ex-rebeldes.

Esse sentimento é partilhado por um doutorando costa-marfinense da Universidade Jean Moulin de Lyon. “Ao ceder assim tão facilmente à pressão dos militares, o governo sabe bem que acabou de abrir a caixa de pandora”, avalia ele. Para este doutorando, deveria ser-se firme e não ceder face aos homens de uniforme. Para tal, seria necessário um exército nacional efetivo. “Por agora, lamenta ele, a própria composição do exército coloca um grave problema. De um lado, estão os ex-FDS[força de defesa e segurança, nr], que são marginalizados por terem apoiado o antigo presidente Laurent Gbagbo, e do outro lado estão os ex-rebeldes que apoiaram Alassane Ouattara. As duas forças, que constituem um conjunto heteróclito, entreolham-se com desconfiança”.

Uma lei do programa militar em vigor até 2020, foi iniciada pelas autoridades no ano passado para uma transformação total do exército.

Foto de capa: crédito da ONU (Flickr)

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