Crédit Guo Qian.

As impressões chinesas

TRADUZIDO POR PATRÍCIA FERREIRA E CATARINA ARANTES GOMES DA SILVA

A exposição “As Impressões Chinesas” teve lugar do dia 6 ao dia 10 de Fevereiro passado, em Lyon. O Le Journal International conheceu Guo Qian, organizadora do evento. Uma ocasião para refletir sobre o estado atual da criação artística chinesa, entre tradição e modernidade.

A exposição reuniu jovens artistas no sexto distrito de Lyon. Músicos, estilistas e cineastas estiveram presentes no encontro. O critério de seleção era simples. « Procuramos jovens que encarnem o dinamismo e a vitalidade. O que conta não é a reputação, mas as suas reflexões individuais relacionadas com a questão da dualidade entre tradição e modernidade », explica Guo Qian, encarregada da organização do evento. O casamento entre arte contemporânea e artesanato chinês é a linha condutora da exposição “As Impressões Chinesas”.

A atuação da música de Guqin. Crédito de Guo Qian.

O guqin é um instrumento de música tradicional de cordas friccionadas que convida à partilha. A sua melodia é muito suave. “Não divulgamos muito a atuação precisamente porque pretendemos criar um espaço de comunicação íntima”, especifica Guo Qian. O músico, Yao Yuanxin, é um jovem estudante de línguas estrangeiras aplicadas. Apaixonado pela cultura asiática, estuda Francês, Inglês e Japonês. “Comecei por aprender duas línguas asiáticas: o coreano e o japonês. Foi para mim uma maneira de recuar um passo para melhor conhecer e compreender a cultura chinesa”, explica. Esta atuação musical permite ao público descobrir o instrumento, pouco conhecido no Ocidente. Os mais curiosos puderam mesmo aprender a tocar algumas notas.

Uma visão contemporânea do artesanato chinês

O juci também fez parte do programa. Trata-se de uma forma de artesanato deveras tradicional. “Ju” significa “curium”, um metal radioativo de cor branca-prateada; “ci” significa “porcelana”. “Juci” é a reparação minuciosa de produtos em cerâmica danificados. Um trabalho de ourives que não deve deixar nenhuma marca. Inspirado por esta técnica tradicional, Gu Yifan cria uma série de obras. O artista escolhe deixar marcas de danos aparentes em pratos. Neles desenha um caráter chinês: o jiang. Esta palavra conheceu diversas evoluções. Tanto pode designar o artesanato como o artesão, dependendo da forma que o caráter toma. “Este caráter traz uma longa história, a da sabedoria dos artesãos chineses. Enquanto criam, devem fazer prova de paciência. É algo que falta na nossa sociedade contemporânea. É o que quero valorizar através do meu trabalho”, declara Gu Yifan.

Trabalho inspirado pela técnica juci. Crédito de Guo Qian.

O simbolismo cromático vale tudo, especialmente para este artista. “O preto e o vermelho são as duas cores mais utilizadas nas criações artísticas chinesas desde a Antiguidade. Estas duas cores representam respectivamente o carbono e o sangue dos animais. Utilizei-as para mostrar o carácter nacional e folclórico”, explica Gu Yifan.

A arte na vida económica chinesa

qipao é uma peça de vestuário feminino chinês. É originário da Manchúria, região do nordeste. Esta roupa tradicional foi modernizada e posta em moda em Shangai no início do século XX. O qipao de nova geração é mais delgado e deixa transparecer mais o corpo feminino, tornando-se um símbolo de liberdade feminina. Menos popular nos nossos dias, é usado apenas em ocasiões especiais, de modo mais formal.

Qipao moderno. Crédito de Guo Qian.

Chen Lijun, jovem estilista chinês, escolheu actualizar o qipao. O objetivo é refazer uma indumentária quotidiana. O estilista depara-se com uma enorme dificuldade: esta peça de vestuário feita à mão é dispendiosa. A sua compra restrita estaria reservada a uma parte privilegiada da população.

O governo aplica políticas favoráveis às empresas culturais. Ma Yun, fundador de Alibaba, propõe um novo sistema de comércio de retalho. O conceito ainda é turvo. A ideia principal é inverter a cadeia de venda, ou seja, que a produção dependa da procura dos clientes para atingir o stock zero. Esta ideia de formação pessoal distingue-se da alta costura. Este novo sistema destina-se a personalizar artigos quotidianos em vez dos artigos de luxo reservados aos ricos.

Transmissão cultural: um processo de cima para baixo

A organizadora trabalha no mundo mediático. A sua exposição demostra uma forte vontade de transmissão cultural junto do grande público. Dando-se conta que a cultura tradicional chinesa tem tendência a faltar no seu trabalho, ela demitiu-se para retomar os estudos em Paris no mercado da arte. “O meu trabalho é destinado ao público: isso nunca deve ser esquecido. A transmissão deveria ser um processo de baixo para cima para evitar a lacuna entre arte e vida”, assume, precisando que “o que falta na sociedade chinesa é a paciência. A maior parte dos chineses não toma tempo para visitar museus. É preciso encontrar outros suportes que se adaptem melhor aos seus hábitos: curtas-metragens, leilões e conferências culturais”. Até agora, ela nunca traiu esta intenção.

Foto de capa: crédito de Guo Qian.

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