Les ruines de Palmyre, Syrie, 2009. Crédit andrelambo (Pixabay).

Saques na Síria: as “antiguidades do sangue”

TRADUZIDO POR JÉSSICA RIBEIRO DA SILVA E PATRÍCIA FERREIRA

Persas, Gregos, Romanos, Bizantinos e Árabes são uma pequena parte dos povos que dominaram a Síria. Os primeiros vestígios da agricultura e da pecuária foram encontrados nesse território, assim como o primeiro alfabeto. A Síria é um cruzamento de civilizações. Dessa forma, o país é uma mina patrimonial e reflete civilizações milenares. Do saque ao financiamento do terrorismo, uma investigação sobre as “antiguidades do sangue”.

Fonte de uma imensa riqueza arqueológica, o património sírio tornou-se num recurso económico para saqueadores e beligerantes. Simultaneamente, 2011 marca o início da guerra civil síria e revela o aumento de saques. O conflito que fez mais de 300 000 mortos, que criou uma crise de imigração deslocando 50% da população, foi igualmente uma catástrofe ao nível do património.

Berço e cemitério da civilização

Os sete locais sírios excecionais e considerados património da UNESCO foram todos inscritos na lista do património mundial em risco. Bosra, Damasco, o castelo medieval Krak dos Cavaleiros, Palmira e mais recentemente Alepo, representam o drama destrutivo que opera na Síria.

Monumentos mundialmente conhecidos, como o Arco do Triunfo de Palmira ou ainda o seu famoso leão, foram completamente destruídos. Outros foram fortemente danificados, como por exemplo o teatro romano em Bosra. Os bombardeamentos russos em Alepo esventraram a sua cidadela, aniquilaram o seu souk (mercado) mas também destruíram uma parte da Grande Mesquita.

War dogs: saqueadores e contrabandistas

Para além dos bombardeamentos e dos confrontos no solo, um outro mal causa estragos na Síria: os saques. Jesse Casana, especialista em arqueologia na Universidade de Dortmund, disse-nos que mais de 3 000 dos 15 000 principais locais arqueológicos do país foram saqueados desde o início da guerra. Este aumento dos saques sem precedente é uma ameaça direta para o património arqueológico da região.

Para o investigador, a questão é saber quem lucra com os saques. Quem são esses “war dogs” que tiram proveito da guerra? Numa análise por imagem de satélite, Jesse Casana constata algo surpreendente. Contrariamente ao que se pensava, o Estado Islâmico não é o único culpado deste fenómeno. Enquanto 21,4% dos locais ocupados pelo grupelho terrorista são saqueados, a mesma percentagem sobe para 26,6% nos locais ocupados pelos opositores do regime e sobe até 27,6% nos dos Curdos. Em contrapartida, o grupo islâmico caracteriza-se por saques intensos. 42% dos locais foram saqueados massivamente, contra 23% nas zonas controladas por Bashar al-Assad, 14% na área dos opositores do regime e 9% nas zonas Curdas. Adversários ou aliados, todos concordam mais ou menos num ponto: o fim justifica os meios.

Evolução dos saques num local próximo de Palmira. À esquerda, o mapa de 2011, antes da guerra, e à direita, em 2015. Crédito: Digital Globe 2015.

Saques de nível industrial

Recentemente, estes números conheceram um aumento. Como nos explica o diretor do centro de pesquisa Archéorient de Lyon, Christophe Benech, mesmo que os saques sempre tenham existido na Síria, o início da guerra provocou a sua aceleração. O controlo é menor e as “fronteiras tornam-se porosas”, afirma o arqueólogo, que viveu nesse país até 2011.

Após ter interditado os saques, o Estado Islâmico, vendo a potencial fonte de rendimentos, começou a organizá-los. A organização começou a taxar a 20% os saques por ela autorizados. Christophe Benech explica que em meados de 2014, a organização apropriou-se do movimento e desenvolveu as suas próprias equipas de saqueadores. Verdadeiros “saques de nível industrial” começaram a ter lugar. Passou então a ser um dos seus principais recursos, com o petróleo e o rapto. Aos olhos do investigador, é uma perda tanto patrimonial como científica. Em todo o caso, resta uma questão tão fundamental como ética: quem compras estas antiguidades?

Da Síria a Londres

Tão paradoxal como pode parecer, a maioria das antiguidades saqueadas na Síria que deixam o país encontram-se… na Europa e nos Estados Unidos. Por isso mesmo, a organização terrorista recupera pontos estratégicos intermediários entre a Síria e a Europa. Assim, contrabandistas do Estado Islâmico levam a mercadoria para cidades como Beirute ou no sul da Turquia. O objetivo é encontrar um cruzamento entre o Médio-Oriente e a Europa, onde o espaço Schengen facilita bastante a circulação. O arqueólogo americano Christos Tsirogiannis evoca praças como as de Genebra, Basileia, Zurique, Londres ou ainda Nova Iorque como particularmente ativas na compra de antiguidades saqueadas. Mudança de prioridades, passes de magia entre vendedores e restauradores, falta de documento sobre a origem do produto, tornam este mercado completamente opaco.

Para Christophe Benech, não se pode dizer que “a Europa financia o Estado Islâmico”. O saque de “antiguidades do sangue” colocam a mesma questão da moral e da responsabilidade. Pareceria que a humanidade para nas fronteiras da cobiça.

Foto de capa: as ruínas de Palmira, Síria, 2009. Crédito: andrelambo (Pixabay)

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