“Plastic China”: a ilusão da prosperidade chinesa

TRADUZIDO POR MARÍA ALEJANDRA PAIXÃO E JÉSSICA SILVA

Um setor obscuro, um “impasse” no qual a sociedade de consumo mergulhou: através das imagens do realizador chinês Wang Jiuliang, o público redescobre uma situação polémica: a do setor da reciclagem do lixo plástico na China.

No seu livro Junkyard Planet, Adam Minter descreve um mundo controverso e igualmente lucrativo. Neste, os resíduos transformam-se em fortunas colossais entregues aos indivíduos e ao Estado. A verdade não deixa de ser amarga.

Captura de tela do filme Plastic China.

Há anos que Wang Jiuliang, realizador e fotógrafo independente, se interessa pelo movimento ecologista. Assim, as suas duas primeiras obras cinematográficas evocam a questão ambiental. O seu primeiro documentário, Beijing Besieged by Waste, estreado em 2011, fala muito sobre o lixo que se acumula ao redor da capital chinesa. Em seguida, realiza Plastic China, vencedor da categoria First Appearance (filme estreante) do IDFA, o Festival Internacional de Documentários de Amsterdão. O filme comove com os grandes planos das caras dos trabalhadores desconhecidos. Desperta emoções vivas sem necessariamente dar explicações. Uma versão curta do documentário teve um enorme sucesso junto dos média.

O lado oculto do setor da reciclagem na China

O documentário conta o quotidiano de duas famílias numa aldeia da província de Shandong, no nordeste da China. Estas famílias fazem a triagem dos resíduos e reciclam o lixo plástico que chega de outros países da Ásia, da Europa e dos Estados Unidos. Os habitantes moram, literalmente, no meio de montanhas de lixo plástico e do fedor constante dos incineradores.

O estado de saúde dos trabalhadores é preocupante. Kun, o patrão, recusa consultar um médico pois não quer ter gastos médicos, já que não tem como pagá-los. À força de viver neste ambiente, e mesmo tendo consciência da grande precariedade, a maioria dos adultos submete-se a tais condições de trabalho. “As doenças cardiovasculares e o cancro são muito frequentes nas zonas que produzem plástico. Seis meses depois de gravar com os trabalhadores, apareceu-me acne clórica na testa” conta o realizador em entrevista à Pengpainews. 

Viver num monte de lixo

As imagens apresentadas são perturbadoras. As crianças mexem no lixo em busca de brinquedos. Uma rapariguinha lava-se com água visivelmente poluída. Um menino coloca na sua boca uma velha cânula. Os pais trabalham para lhes dar melhores condições de vida . Mesmo assim, continuam a viver num monte de lixo.

Captura de tela do filme Plastic China.

Captura de tela do filme Plastic China.

A família de Kun e a de Peng representam duas classes sociais diferentes . São testemunhas de uma particularidade do setor da reciclagem: os cidadãos quase não praticam a triagem seletiva dos resíduos. São os trabalhadores exilados que a fazem. Este documentário – paroxismo da desigualdade social – mostra que a triagem seletiva dos resíduos exige muita mão-de-obra. Assim, estas oficinas familiares são de grande importância e chegam a tomar o lugar das grandes indústrias. “Através de estudos, descobrimos que, desde Shangdong até Guangdong, passando por Hebei, as oficinas desempenham um papel principal nesta indústria” explica Wang Jiuliang à Pengpainews. Contudo, isto continua ilegal.

“Lixo do mundo”: de quem é a culpa?

“9 dólares. É o preço proposto pelos Estados Unidos para “vender” uma tonelada de lixo plástico. Nem sequer dá para embarcar no porto. Mesmo se eles generosamente nos oferecem o lixo deles, continua a ser ilegal”, conta o realizador. Esta “hipocrisia do comércio internacional” merece ter a culpa? O filme baseia-se no centro de reciclagem ecológico de Berkeley, na Califórnia, para argumentar os seus propósitos. “Eu acho que o mercado do lixo plástico vai voltar para a China, porque os chineses oferecem o dobro do preço pelo lixo”, explica o diretor Daniel Maher.

Na periferia de Baotou, no norte do país, o lixo esparramado pelas ruas. Captura de vídeo. Crédito Alexis Demoment.

Segundo Wangyishudu, a China representa 25% da produção e um terço do consumo do plástico no mundo inteiro. Em 2014, o país produziu, sozinho, 73,88 milhões de toneladas e consumiu cerca e 93,25 milhões. Este desequilíbrio entre a oferta e a procura implica a importação dos plásticos e a recuperação dos resíduos. Os lucros produzidos por este mercado superam as receitas da reciclagem do papel, do ferro e do aço. O preço de importação de lixo plástico é equivalente a somente um terço do preço do plástico novo.

Um círculo vicioso

A oferta, importante, torna impossível a solução de uma diminuição das importações de lixo plástico. O tratamento legal dos resíduos pelas grandes indústrias é importante. Porém, em paralelo, os esforços do governo para proscrever as atividades ilegais são limitados. Este setor lucrativo, com um custo de produção reduzido, muda-se rapidamente para as regiões do litoral. Os trabalhadores não contam com o filme para os tirar da miséria. A maioria deles só quer ganhar a vida. Um círculo vicioso, que resulta diretamente da política económica chinesa.

Plastic China é um nome de duplo sentido. “Sob a aparente prosperidade da China, esconde-se uma questão ainda nunca evocada: como é que este país pode se desenvolver economicamente e a uma velocidade tão impressionante? O tema do plástico evoca também o da cirurgia. A atual prosperidade chinesa não é mais do que uma ilusão”, afirma o realizador, duvidando, aos jornalistas ao Nanfang Zhoumo, jornal chinês. “Se apenas vires esta terra de lixo na qual pisas, nunca saberás que estamos na China”.

Foto de capa: nos campos da Mongólia Interior, os túmulos ficam a poucos passos de montanhas de lixo. Alguns deles, pouco cuidados, estão cobertos de lixo. Captura de vídeo. Crédito Alexis Demoment.

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