TRADUZIDO POR MARIA FRANCISCA REPAS ROMÃO E MAYCA FERNANDES SANTOS

A evolução do skate na antiga República Democrática Alemã é retratada pelo skater e realizador alemão Marten Persiel no filme This Ain’t California. Enquadrado na contestação política da Alemanha de Leste, a defesa desta modalidade, própria do sonho americano, trouxe profundas mudanças sociais em Berlim. Analisemos.

Créditos de Chloé Marchal.

Originalmente chamado de “roll surf” [“prancha para surfar sobre a calçada”], e descendente direto do surf, o “skate” nasceu na Califórnia, no final dos anos 50 do século XX. Devido à escassez de materiais, as pranchas de skate eram resultado de bricolagens com materiais reciclados. Em 1973, Frank Nasworthy inventou a roda de uretano. Em consequência, o conceito e a forma de aprender a modalidade mudaram radicalmente. O desporto tornou-se cada vez mais popular, transformando-se num sucesso comercial por todo o mundo.

1978: Frank Nasworthy, Dan Murray, Cadillac Wheels. Créditos de Craig Snyder.

Berlim Ocidental sob a influência californiana

Este desporto assemelha-se a um espelho do sonho americano. A sua influência estendeu-se tanto aos jovens californianos, quanto a todo o resto do globo. A União Soviética tentou travar a progressão da modalidade na Europa do Leste, pois via o skate como uma forma de contestação ao regime. Esta bipolarização das tendências culturais radicalizou-se em 1961. A construção do muro de Berlim viria a representar o auge da divisão da cidade em dois polos dinâmicos, mas culturalmente opostos.

Durante os anos 80, a paisagem cultural dos setores britânicos, franceses e americanos ficaram marcados por artistas de todas proveniências. Em entrevista ao Le Journal International, Mark Reeder, protagonista do filme B-Movie Lust & Sound, refletiu sobre os diferentes estratos da cultura alternativa da época. A liberalização aduaneira neste verdadeiro enclave comunista refletiu-se na multiplicação de novas formas artísticas. Entre elas, as Tachelès, a incontrolável tendência eletrónica ou mesmo a arte de rua (“street art”). Por isso, todas as produções recebiam um reconhecimento artístico. O acesso às drogas fabricadas pelos próprios soldados e totalmente proibidas pelo Leste criou uma nova relação com a arte, cada vez mais associada ao quadro eletrónico emergente. O Ocidente rendeu-se à influência californiana logo a partir de 1950. Mas só trinta anos mais tarde é que esta atingiu o Leste.

Créditos de Chloé Marchal.

O Leste não era a Califórnia

Em Berlim do Leste, o regime soviético atribuiu uma conotação negativa ao skate. Esta resistência cedo se refletiu na proibição da modalidade. O experiente skater e realizador, Marten Persiel, interessa-se pelo fosso entre as duas conotações atribuidas ao skate: “rebelde” na RDA e “mediatizada” na RFA. Cresceu no Ocidente, onde a cultura do skate bebeu a inspiração direta das tendências punk e dos Estados Unidos. Também viajou muito : Inglaterra, Brasil, Filipinas, Espanha… Em 2011, regressou finalmente a Berlim e trouxe consigo o projeto de um filme sobre o skate na antiga RDA, This Ain’t California.

Em entrevista ao Le Journal International, Marten Persiel explicou: “enquanto fazia o filme, tinha a perspectiva de um verdadeiro estranho, redescobrindo a História. Eu conhecia a história do skate no Ocidente do princípio ao fim. Mas depois de toda a minha pesquisa, compreendi que tudo era diferente na RDA. Aí, o skate era muito mais do que um ato de contra cultura. Era uma manifestação da liberdade e afastamento face ao sistema, como uma espécie de escape para os jovens”.

“Trinta anos de atraso”

A impossibilidade de filmar em Super 8 e a seleção de programas televisivos isolava os berlinenses de leste numa espécie de “ilha política”. O realizador acrescentou que “o skate era mais do que uma simples forma de ocupação dos adolescentes, isolados dos efeitos da moda e das tendências de consumo americanas. As pranchas eram feitas com recurso à bricolagens – o que não tinha que ver com uma questão de classe, mas sim com o problema de simplesmente não haver material. O Leste tinha trinta anos de atraso face aos Estados Unidos da América”. Considerado como um dos primeiros documentários a explorar esta cisão cultural entre os dois blocos, This Ain’t California foi lançado nos cinemas em 2012 e construiu uma identidade fiel e sem representações.

Cena extraída de This Ain’t California. Créditos de Marten Persiel.

A influência crescente do skate na Alemanha do Leste

Como forma de compensar este atraso, a RDA reivindicou uma uniformidade cultural e instaurou um culto do regime. O desporto enquanto espetáculo artístico foi alvo do controle do Estado. Assim, as culturas alternativas emergentes nesta época não beneficiaram de uma efusão de possibilidades artísticas, mas ditaram a fuga aos códigos artísticos e sofreram a colocação de entraves da parte do Estado. “Quando skaters como Goofy, René Thomasius ou Marco Sladen, apresentados no meu filme, passavam pela Avenida Karl Marx ou pela Alexanderplatz nos seus skates artesanais, eram vistos como uma influência perversa sobre a moral e a ordem pública”, conta M. Persiel.

O filme aborda as visitas às cidades do Leste. Acompanhados de DJ, os skaters dirigiam-se diretamente aos jovens, convertendo-os à modalidade. Esta transformou-se, assim, numa arte em si mesma, tal como a break dance ou os movimentos punk. Mas os jornais televisivos do Leste comparavam estas práticas a uma doença.

“Como um vírus, atravessa as metrópoles a toda a velocidade, criando um rastro de imoralidade e ceticismo, sendo urgente proteger as crianças desta praga” – extrato dos arquivos da RDA, This Ain’t California.

“Por um lado, lembra o cineasta, queriam legalizar o movimento; por outro lado, consideravam que tal poderia servir os interesses dos skater”. Chegámos mesmo a descobrir que, em 1985, os dossiês dos serviços secretos da RDA continham notas sobre pessoas envolvidas em “desportos de rua não organizados”. Estes alvos reivindicaram para si a capacidade de dar uma “direção” ao desporto.

Sergio Lipe Pimenta, Berlin, 2017. Créditos de Chloé Marchal.

A comunidade de skate reconhecida em 2017

Com a reunificação alemã, a fragmentação cultural desapareceu. O skate, fruto da influência americana, tornou-se acessível. Assumiu progressivamente um lugar na cultura comum que deixou de o ver como uma forma “perverter a moral”. Os seus códigos estéticos e técnicos foram reconhecidos pelos praticantes da modalidade como um meio de expressão com possibilidades infinitas – M. Persiel descreve o skate como algo “entre a dança e o desporto”.

No Blöcker Park, um skate-park que se estende de Kreuzberg em Berlim, o Le Journal International reencontrou dois skaters. Sergio e Antoine aceitaram partilhar a sua experiência com a comunidade de skate de 2017. Adepto da modalidade desde os seis anos, Antoine analisou a sua evolução histórica:

“O skate criou uma comunidade inteira, que atualmente está completamente integrada e já não tem a mesma conotação “underground” ou rebelde que antes a caracterizava. O skate conheceu diferentes períodos: nos anos de 1980, foi agitado pela conjugação da rapidez com o espetáculo. A partir de 1990, desenvolveu-se muito mais a técnica, enquanto antes nos cingíamos a manobras mais simples. Foram criadas muitas marcas e personalidades divulgadas pelos vídeos percursores da internet. A partir de 2010, houve de novo uma espécie de pausa que, depois, deu lugar a um renascimento do desporto, com novos estilos. O skate tornou-se mais artístico. A sua maior divulgação pelas mídia e pelas pesquisas sociais permitiu-lhes chegar a novas camadas da população”.

A democratização da modalidade

Sergio explicou que a conotação libertária do skate permanece intacta, mas que agora é enriquecida pelos novos modelos, truques e forma das pranchas. Os progressos técnicos dividem-se em diferentes correntes: o estilo “retro old-school”, os “crashers”, o estilo mais técnico, o estilo mais criativo… Independentemente destes progressos, são duas as tendências que persistem na modalidade. A primeira é preservar a simbologia de um movimento alternativo e intimamente ligado às correntes punk e de break dance. A outra tendência é fazer deste desporto uma cultura comum; por exemplo, com a recente polêmica em torno da possibilidade de introduzir a disciplina nos Jogos Olímpicos, que dividiu a comunidade de skaters.

Sergio Lipe Pimenta, Berlin, 2017. Créditos de Chloé Marchal.

Além disto, o skate – que começou como herdeiro do surf – desenvolveu-se fora da sombra da modalidade que lhe deu origem, com as suas próprias técnicas, personalidades e lugares de culto. A essência do skate é esta interface libertária entre o desporto e a arte. Representou um boicote ao Leste e uma omnipresença do Ocidente na Alemanha dividida, e a sua institucionalização ocorreu durante a queda do Muro de Berlim. Atualmente, as competições multiplicam-se, e a acessibilidade aos mercados é encorajada pelos inúmeros patrocinadores, marcas e personalidades. A modalidade democratizou-se. Confirmando uma solidez de uma comunidade que nasceu há quase 70 anos.

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