Portugal joga a carta da silver economy

TRADUZIDO POR LISETE FERNANDES E PATRÍCIA FERREIRA

Cada vez mais reformados decidem gozar a sua reforma em Portugal. Retorno ao desenvolvimento da polítical lusitana da terceira idade.

Desde a crise da dívida que Portugal foi considerado como um ponto fraco da Europa, tal como a Grécia. Abandonado pelos investidores, os piores cenários para a economia nacional tinham sido previstos nos círculos financeiros. No entanto, o país conseguiu ser bem-sucedido na recuperação da sua situação económica, passando de -4% do crescimento do PIB em 2012 para cerca de 1,5% em 2015, de acordo com dados do Banco Mundial.

Um desejo expresso pelo governo

Esta recuperação foi feita às custas de uma política de austeridade, mas também pela exploração de novos sectores económicos. Entre eles, a silver economy, que designa actividades económicas destinadas à terceira idade. Em poucos anos, o sector desenvolveu-se consideravelmente, a ponto de, por vezes, ser referido como a nova Florida.

Em 2009, em plena turbulência fiscal e económica, o governo português promulgou um decreto-lei formalizando o estatuto de residente-não habitual (RNH). Este pretendia facilitar a instalação de investidores e de reformados estrangeiros. O acordo previa uma isenção fiscal sobre as pensões durante um período de 10 anos, com a condição de viver, pelo menos, 183 dias por ano em Portugal.  Em 2012, o governo persistiu e anunciou a simplificação da obtenção do estatuto de RNH a partir do ano de 2013.  Doravante basta comprovar que não foi um residente fiscal em Portugal nos últimos cinco anos para beneficiar do estatuto. A fiscalidade em Portugal para os estrangeiros revelou ser bastante atractiva e as expectativas governamentais eram muito ambiciosas. O objectivo era, por exemplo, acomodar 20 000 franceses entre 2014 e 2016.

As razões para o sucesso

Estas medidas atraíram rapidamente a atenção de agências de consultoria e de imprensa especializada em investimento. Países como Marrocos eram até então vistos como o Eldorado dos idosos para desfrutar da sua reforma dourada ao sol. Mas os problemas geopolíticos e os ataques terroristas no Magreb contribuíram para aumentar a atractividade de Portugal, que é considerado estável e sem problemas de segurança.

O país beneficia da sua localização costeira. Mas sobretudo a sua região mais popular, o Algarve, é atractiva pelo seu elevado número de horas de exposição solar e pelas temperaturas amenas. As atracções são muitas para os cidadãos estrangeiros. A proximidade cultural e o acolhimento caloroso dos portugueses são frequentemente destacados em revistas especializadas. Sendo o país membro da zona euro, não há nenhuma perda em termos de câmbio para os muitos europeus. O país também é bem servido por linhas aéreas de baixo custo. Podemos assim para lá viajar por cerca de cinquenta euros a partir de diversas cidades europeias, com um trajecto de apenas algumas horas.

O mercado imobiliário é muito mais barato e o custo de vida, de acordo com a OCDE, é 35% inferior ao de França. Do ponto de vista dos cuidados de saúde, o sistema de saúde português está classificado no 12º lugar de 154 países pela OMS. Portugal revela ser um paraíso para os reformados que muitas vezes se queixam do seu baixo poder de compra. Em 2014, dos 7000 franceses que se estabeleceram em Portugal, 80% eram reformados.

Um mercado imobiliário atractivo. Crédito Les Echos.

Um sector económico em crescimento

Na sequência destas medidas e do seu sucesso, a silver economy têm-se realmente desenvolvido. É possível constatar o crescimento de empresas de consultoria para a optimização das pensões e para o apoio  à instalação e aos procedimentos administrativos. A sua presença é cada vez mais acentuada nos salões para idosos. Observámos também a criação e o desenvolvimento de empresas  de seguros de doenças. Estes permitem cobrir as necessidades dos expatriados, sendo o sector privado relativamente importante no sistema de saúde.

Mas o sector mais revelador é sem dúvida o imobiliário. Em 2014, uma em cada cinco propriedades vendidas foi comprada por estrangeiros. Uma parte crescente do sector está a virar-se para este tipo de clientela, a de expatriados. Os profissionais estão a formar-se em línguas estrangeiras e recrutam cada vez mais funcionários falantes de inglês ou francês. O sector imobiliário não experienciou a verdadeira bolha especulativa antes da crise. Isto torna-o bastante atractivo para os europeus de outros países onde as rendas são bem mais elevadas. Investidores em busca de uma mais-valia e reformados com poucas economias, é o que Portugal atrai.

Foto de cartaz: Praia da Rocha em Portimão, Algarve, Portugal. Crédito Steven Fruitsmaak.

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