Crédit Jason Lewishamdreamer (Flickr).

VIH: a PrEP, um novo instrumento de combate

TRADUZIDO POR CATARINA DE VASCONCELOS CABRAL MACEDO E CATARINA ARANTES GOMES DA SILVA

Há décadas que a ciência tenta desenvolver um tratamento para a cura do VIH. E se, ao invés, procurássemos prevenir, no início, a contaminação? É este o princípio da profilaxia pré-exposição, conhecida por PrEP. Entre solução “milagre” e controvérsias, reportagem escrita sobre Londres a respeito do debate animado que se vive na comunidade médica.

O VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana) era, ainda em 2012, a 6ª causa de mortalidade no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. O vírus provoca a sida (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), quando o sistema imunitário, que se tornou demasiado débil, já não é capaz de se defender. Esta “peste” dos anos de 1980, que tende a cair no banal, volta agora a estar em destaque.

Infografia: Em 2014, segundo a ONUSIDA, 36,9 milhões de pessoas viviam com o Vírus da Imunodeficiência Adquirida. Nesse mesmo ano, aproximadamente 2 milhões de novas infeções entram na contagem, enquanto o número de mortes ligadas à sida aumentou para 1,2 milhões. Auriane Guiot.

O número de pessoas a viver com o vírus é, paradoxalmente, uma boa notícia, dado que as novas infeções diminuíram; o que significa que, de facto, a maioria das pessoas consegue viver com o vírus e por mais tempo. Atualmente, deixou de ser uma sentença para se tornar, para muitos seropositivos, um “simples” diagnóstico.

A resposta mundial na luta contra a doença permitiu uma queda de 35% no número de novas infeções, desde 2000, e, até mesmo, de 58% nos casos pediátricos. Por sua vez, a mortalidade reduziu-se em 48% desde o seu pico, em 2004. Claro está que a situação não é idêntica em todo o mundo. Assim, na África subsariana, nas Caraíbas, na América Latina, na região Ásia-Pacífico, as taxas de infeção diminuíram. Inversamente, aumentaram no Médio-Oriente, no Norte de África, na Europa Oriental, e, ainda, na Ásia Central. Mantiveram-se estáveis na Europa Ocidental e Central e na América do Norte. Do mesmo modo, o número de mortes segue esta tendência nas diferentes regiões. Registou-se uma queda de 12% na Europa Ocidental e Central e na América do Norte. Contudo, aumentou para mais do triplo no Médio-Oriente e na África do Norte!

Medicamentos antirretrovirais, o tratamento atual contra o VIH

As diferenças regionais podem explicar-se de diversas formas. Poderá tratar-se do consumo de drogas injetáveis, do comércio do sexo, ou simplesmente de ignorância quanto aos meios de transmissão. No caso do Medio-Oriente e do Norte de África, o crescimento do número de novas infeções deve-se principalmente à falta de acesso ao tratamento contra o VIH, os antirretrovirais (ARV). Pelo contrário, a sua queda global deve-se, em grande parte, à melhor acessibilidade ao tratamento, em média. Graças a este, os indivíduos seropositivos podem reaver um sistema imunitário eficaz, que lhes permite lutar contra doenças. Não cura os pacientes, mas impede que o vírus se multiplique e, portanto, que deteriore os órgãos. Adicionalmente, permite reduzir a presença do vírus a um número tão ligeiro que é qualificado de «indetetável» e, assim, permite evitar novas infeções, sobretudo aquando de relações sexuais. Neste seguimento, fala-se por vezes de «Treatment as Prevention», ou seja, tratamento enquanto prevenção (da infeção).

Embora os progressos alcançados em termos de tratamento sejam enormes, não chegam. Os objetivos de desenvolvimento sustentável têm por finalidade pôr termo à epidemia até 2030. Mas, como explicou a OMS em 2016, «à escala mundial, os progressos em matéria de prevenção do VIH estão estagnados.» Porém, é bem possível que tenha acabado de surgir um meio eficaz de remediar este problema.

A PrEP, um novo instrumento no combate ao VIH?

A prevenção e o tratamento do VIH constituiriam, baseando-nos na ONUSIDA, 17 vezes o retorno dos investimentos. É de salientar que é dispendioso tratar em vida um paciente seropositivo. O próprio tratamento é caro: 700€ por mês, em França. Aos quais acrescem os controlos periódicos e, a longo prazo, os potenciais custos de uma saúde que se encontra muito fraca. Segundo Slate, os custos para a sociedade do acompanhamento médico de um seropositivo elevar-se-iam a 980 000€ (no Canadá). Por este motivo, é preferível que se invista na prevenção e em torna-la o mais eficaz possível.

A PrEP é um medicamento diretamente inspirado nos antirretrovirais utilizados n tratamento do VIH – geralmente o Truvada, que consiste na combinação de duas das três moléculas utilizadas nos ARV. Diversos estudos demonstraram a sua eficácia. A redução do risco de infeção será de 86% em média, caso o tratamento seja seguido corretamente. No entanto, a medicação só é acessível em poucos países e é comparticipada em França apenas desde janeiro de 2016. Uma embalagem de 30 comprimidos custa aproximadamente 500€, o que constitui certamente um entrave para diversas populações. Para agravar este cenário, nem todas as consultas médicas e análises biológicas associadas são comparticipadas pela segurança social. Alguns seguros de saúde encarregam-se do resto; caso contrário, é por conta própria. A este respeito, a coligação PLUS publicou um comunicado em que preconiza que a PrEP passe a ser acessível em toda a Europa.

Um exemplo conclusivo

De entre os 36,9 milhões de pessoas no mundo que vivem com o VIH, 17,1 milhões desconhecem estar infetadas. São precisamente estas últimas que se arriscam a transmitir o vírus. Tal é particularmente verdade nos países mais desenvolvidos, uma vez que o acesso ao tratamento é menos problemático. Assim sendo, é preciso agir no início. Descobrir novas formas de impedir a transmissão do vírus permitiria evitar que a epidemia fugisse do nosso controlo uma vez mais.

A PrEP poderá revelar-se extremamente eficaz, como provado pelo exemplo inglês. Em Londres, o número de homossexuais a contrair o VIH terá diminuído 40% em dois meses, graças a Greg Owen. Owen terá até conseguido que a taxa diminuísse um terço em Inglaterra, através de um site com medicamentos acessíveis. A sua história insere-se, num sentido mais lato, na da luta pelo acesso a medicação, problema que preocupa cada vez mais a União Europeia. No entanto, esta questão mereceria um artigo próprio…

Fotografia ao comprido: ação organizada pela Act Up London, 2 de julho de 2015. Nos cartazes: «Tornem a PrEP acessível ao SNS AGORA.», «A PrEP está disponível nos estados-Unidos desde 2012. E não no Reino-Unido porquê?». Créditos Jason Lewishamdreamer (Flickr).

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